A ARTE DE VIVER BEM APÓS O CÂNCER DE MAMA

Conheça projetos brasileiros que apoiam às mulheres com câncer de mama. As iniciativas vão desde resgate da autoestima, difusão de informações sobre direitos e prevenção, alimentação saudável, yogaterapia e empregabilidade.

Por Anelize Moreira, editora de contéudo do Vida Veda

É possível ter qualidade de vida após um diagnóstico de câncer? Há 15 anos, Valéria Baraccat Gyy, 59 anos, tem provado que sim. Quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama, a psicóloga e jornalista se deparou com a primeira barreira: falta de informação qualificada e confiável.

Para enfrentar cada etapa do tratamento, ela se tornou uma estudiosa de hábitos saudáveis e aliou a auto-observação para ganhar mais saúde e bem-estar.

“Fui pega de surpresa com diagnóstico de câncer, como tantas são. Sempre tive uma boa alimentação e fazia atividade física, após o diagnóstico, passei a estudar por meio de pesquisas científicas e perceber que poderia fazer mais e passei a fazer mudanças nos meus hábitos. Elas impactaram no meu tratamento e passei a disseminar esses conhecimentos”, conta Valéria.

Além de auxiliar no tratamento, os pilares da saúde, alimentação e movimento podem ajudar na prevenção. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a prática de atividade física e de alimentação saudável estão associadas a menor risco de desenvolver câncer de mama: cerca de 30% dos casos podem ser evitados quando são adotados esses hábitos.

Foi dessa busca de Valéria que nasceu o Instituto Arte de Viver Bem, com atendimento voltado às mulheres em tratamento de câncer de mama. A instituição divulga informações e apoia mulheres no âmbito jurídico, psicológico e empoderamento feminino.

“Apoiamos pacientes nesse processo gratuitamente via internet e em rodas de conversa, mas também com envio de próteses, sutiãs e oferecendo fisioterapias. É autoestima para além dos lenços, mas como resgate da dignidade e acesso a direitos”, explica a fundadora.

Em 2019, o Brasil deve registrar quase 60 mil novos casos de câncer de mama. É o que aponta o Instituto Nacional de Câncer, órgão ligado ao Ministério da Saúde. Esse é o tipo mais comum entre mulheres de todos os países.

Há 20 anos esse mês é marcado por atividades que acontecem no mundo todo, como conscientização, prevenção e diagnóstico precoce da doença, numa campanha conhecida como Outubro Rosa. Além de iniciativas governamentais em estados e municípios, organizações da sociedade civil têm diferentes frentes de atuação.

Após o diagnóstico, um dos desafios das pacientes é compreender os fatores de risco familiar. Esse ano a ginecologista Fernanda Nunes e endocrinologista Alessandra Rascovski da Casa Consciência, em São Paulo, passaram a oferecer consultas médicas de aconselhamento gratuitas durante o mês de outubro e novembro.

“O paciente que recebe diagnóstico tem a preocupação com a história familiar, se de repente a sua filha ou irmã vão ter um risco aumentado de ter câncer de mama. Se o familiar for de alto risco, é importante começar a fazer exames como a mamografia e a ressonância antes dos 40”, explica a mastologista Fernanda Nunes.

Os interessados podem agendar consulta até o dia 15 de novembro, no site da Casa Consciência. Ela ressalta que quanto mais rápido se acessa o diagnóstico, maior impacto na redução da mortalidade das pacientes. “Se ela chega com nódulo com um ou cinco centímetros, isso faz muita diferença. Quanto menor o tamanho, mais em fase inicial a doença, a paciente é submetida a tratamentos menos invasivos.”, ressalta a ginecologista.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer, mulheres que possuem vários casos de câncer de mama e/ou pelo menos um caso de câncer de ovário em parentes consanguíneos podem ter predisposição genética e são consideradas de maior risco para a doença. O caráter hereditário corresponde a apenas 5% a 10% do total de casos.

O autocuidado por meio do autoexame e exames laboratoriais é fundamental para a descoberta da doença em sua fase inicial. O Ministério da Saúde recomenda que mulheres com 50 a 69 anos realizem a mamografia de rotina uma vez a cada dois anos.

Porém, o acesso ao diagnóstico é desigual no Brasil. No Sul e no Sudeste diagnostica-se cerca de 30% dos casos em estágio inicial, enquanto que no Nordeste esse número chega a 12,7%, segundo o Inca.

“Eu trabalho em consultório particular com pacientes que têm condições de fazer desde uma mamografia, ressonância [exames] justamente que ajudam a fazer o diagnóstico precoce, mas trabalho no SUS, elas nem sempre acessam mamografia, muitas vezes até por achar que é um exame doloroso ou porque não tem sintomas”, comenta Fernanda.

Para a ginecologista Priscila Pryrrho, antes dos exames que servem apenas para detectar a doença já manifestada, é importante a prevenção. “A doença se expressa há muito tempo e a gente ignora, seja por meio de um cansaço, uma falta de apetite. Nosso corpo já vai dando sinais de falência muito antes e precisamos trabalhar hábitos de vida, que é tudo que a gente se nutre em todos os sentidos.”

Um dos primeiros passos é mudar a alimentação, segundo sair da zona do sedentarismo e manejo do estresse. “Comer comida de verdade e abandonar os industrializados e processados de forma geral, fazer exercícios, meditação e manejar o estresse que não pode ser ignorado”, conclui Priscila.

https://youtu.be/qcoT7EwDL3Q

Empoderamento feminino

Além dos tratamentos convencionais, práticas de saúde integrativa como yoga tem sido importantes para devolver a qualidade de vida a essas pacientes. Após ter ido para Índia no ano passado, a professora de yoga Denise Barbalho Guirau decidiu que iria atuar com a yogaterapia, técnicas do Hatha Yoga utilizadas para prevenção e que ajudam no tratamento de doenças.

“A yogaterapia pode ajudar as mulheres a se conhecer melhor e a agir de acordo com sua essência, ajudando a retirar padrões nocivos e a plantar padrões construtivos. Ajuda a conectar não apenas o corpo, mente e espírito como também nosso ser a tudo que está a nossa volta, ajudando a compreender que fazemos parte de tudo que está a nosso redor.”

A prática possui contraindicações e deve ser feita sempre com ajuda de um professor para que seja adaptada a cada indivíduo. Esse mês, Denise ofereceu uma aula especial no último dia 15, focada em mulheres com câncer ou que tiveram a doença. Ela oferece as aulas de yogaterapia também na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na capital paulista, gratuitamente. Interessados e mais detalhes pelo whatssap: 11 99313–7083.

A professora de yoga também realiza um projeto voluntário na Unifesp com adultos e crianças que têm doenças infectocontagiosas, alunos particulares e em grupos.

“O objetivo da yogaterapia para mulheres que têm ou tiveram alguma patologia é mostrar que o yoga pode ser integrado ao tratamento convencional, ajudando inclusive na cura deste paciente e, em alguns casos, utilizados até dentre pacientes terminais. Existem alguns estudos científicos que já comprovam a eficácia da yoga em pacientes que têm e tiveram câncer.”, diz Denise.

Outra frente de empoderamento é garantir a empregabilidade dessas mulheres. É por isso que a Fundação Laço Rosa, instituição de referência no Brasil na articulação de políticas públicas e projetos de conscientização e apoio relacionados à causa do câncer de mama, lançou esse ano a campanha enfatizando a importância da estabilidade empregatícia dessas pacientes pela legislação brasileira.

Foi assim que surgiu a “Contratada”primeira plataforma brasileira de empreendedorismo e emprego para mulheres que passaram pelo câncer de mama.

A Fundação nasceu em 2011, a partir da experiência de Aline Lopes. Em 2007, Aline descobriu um diagnóstico de câncer de mama na sua gravidez e iniciou uma luta contra a doença, passando por mastectomia e sessões de quimioterapia.

A ideia da plataforma é conectar pacientes e empresas socialmente responsáveis, diminuindo barreiras e facilitando, para as pacientes que já venceram a doença, o retorno ao mercado de trabalho, mas também lutar para que as mulheres tenham amparo legal para garantir a estabilidade no emprego para pacientes com câncer.

Um dos projetos pioneiros da instituição sem fins lucrativos é o Banco de Perucas Online, que faz doação gratuita de perucas pela internet para pacientes em quimioterapia e que já atendeu mais de 6 mil pessoas.

 

Conheça cada uma das iniciativas:

http://www.artedeviverbem.org.br/2015/

https://www.casaconsciencia.com.br/

@deniseguirau_uniqueyoga 

https://fundacaolacorosa.com

https://fundacaolacorosa.com/contratada/.

https://www.inca.gov.br/

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