O QUE É AYURVEDA?

Uma visão do Ayurveda por Matheus Macêdo e Ricardo Barreto.

Essa pergunta é o cerne de tudo e neste artigo vamos tentar respondê-la. Não tem resposta fácil e existem várias definições diferentes.

O Caraka Samhita, um dos nossos textos mais antigos, oferece uma resposta bastante sintética para essa pergunta, o Sushruta Samhita oferece uma resposta um pouco diferente, e o Ashtanga Hrdayam acaba pegando desses dois autores e também trazendo uma outra maneira de entender o que é Ayurveda. Eu pessoalmente tenho uma forma própria de entender Ayurveda para os tempos modernos.

Ayurveda, basicamente, se você pegar um ditado super famoso: “Ayuranena veti iti Ayurvedaha”, o entendimento da vida é Ayurveda.

Ayu e Veda são as duas palavras, o “R” é só uma consoante de ligação. Então, AYU significa vida, de forma geral, e VEDA significa conhecimento. Só que o nosso conhecimento de Ayurveda de acordo com os Samhitas é mais específico, então você vai ver que, por exemplo, o Caraka define “vida” como: “sharira indriya satva atma samyoga”, então a união do corpo, dos sentidos, da mente e desse elemento que a gente chama de “atma” ou “avyakta”, aquele que não pode ser observado, a união desses elementos é considerado como vida.

Então, para o nosso estudo, Ayu, vida, é o ser humano. Óbvio que você tem no Ayurveda correntes específicas para o tratamento de animais, por exemplo, ou Ayurveda específica para o tratamento de plantas. Mas de acordo com os Samhitas, a fonte científica que nós estudamos, a matéria do nosso estudo no Vida Veda é a medicina. É a ciência responsável pela compreensão da saúde dos seres humanos.

Então o que é Ayurveda na minha definição?

Ayurveda é um sistema de medicina científico, baseado em diretrizes clínicas, expresso em textos antigos, que passaram por constante revisão de pares ao longo dos anos; esse conhecimento foi atualizado ao longo do tempo na forma de Samhitas e Nighantus.

Então vamos quebrar essa definição e vamos estudar ponto a ponto.

Ayurveda é um sistema de medicina científico.

Se você olhar qualquer definição sobre ciência, desde a evolução da ciência no conceito árabe, até à metade do século dezenove, quando a medicina que nós conhecemos hoje surgiu; ou mesmo o modelo hipocrático. A base, o cerne do que a gente considera como ciência é a capacidade de observar a natureza, formular hipóteses e testar essas hipóteses para saber se elas são válidas ou não. Esse cerne está integralmente presente no que a gente chama de Ayurveda. Então Ayurveda é um sistema de medicina científico.

Baseado em diretrizes clínicas.

Vocês podem ver que os Samhitas, esses textos clássicos, são na verdade o que hoje nós conhecemos, num modelo de medicina baseada em evidências, como diretrizes clínicas. São hipóteses formuladas que foram testadas e passadas de geração para geração, e questionadas e criticadas uma geração após a outra, para depois, milhares de anos depois, a gente conseguir juntar essas diretrizes clínicas em livros como o Ashtanga Hrdaya, que vão ser passados para a nova geração de médicos. Então, o Ayurveda é baseado em diretrizes clínicas.

Ela é expressa em textos antigos que passaram por constante revisão de pares.

Então estes textos não foram escritos em um momento isolado no passado e nunca mais foram revistos. Muito pelo contrário. Eu entendo que as pessoas que estudam Ayurveda de uma forma mais superficial, talvez tenham a compreensão de que os Samhitas são textos que foram formulados no passado remoto e que nunca mais foram tocados e a gente ainda estuda eles da mesma maneira como eles foram concebidos inicialmente, mas isso não é verdade. Se você pegar o exemplo do Caraka Samhita, o texto mais antigo que a gente tem, ele foi elaborado entre dois mil e mil anos antes de Cristo. A questão da história, que a gente chama de “itihasa” é um pouco confusa. Você tem autores que dizem uma data, autores que dizem outra. Para o objetivo do nosso estudo, isso não é tão relevante. Acompanhe a minha lógica.

Então, se o Caraka Samhita foi elaborado entre dois mil e mil antes de Cristo, na verdade, naquela época, originalmente, o primeiro texto era chamado de Agnivesha Tantra. Então a primeira versão desse desse livro era chamada de Agnivesha Tantra. Em mais ou menos 300-400 anos antes de Cristo, quer dizer, no terceiro, quarto século antes de Cristo, teve uma nova edição deste livro por um estudioso na época, chamado Caraka. Então essa nova edição foi chamada de Caraka Samhita. É possível observar que o Caraka Samhita na sua origem nem era chamado assim. Ele ganhou esse nome quando o Agnivesha Tantra foi reeditado, no terceiro, quarto século antes de Cristo, para tomar a forma que ele ganhou e que foi chamada de Caraka Samhita, mas não parou por aí. Depois, 600 anos depois de Cristo, você teve mais um movimento de reedição, de reestruturação desse texto, por um autor que chamava Drdhbala, e esses três autores: o Agnivesha, o Caraka e o Drdhbala, a compilação do conhecimento desses três é que na verdade é o texto que hoje nós chamamos de Caraka Samhita.

Além disso, desde a criação do Caraka Samhita até os dias de hoje, é muito comum, a cada cem ou duzentos anos, um autor famoso ou um médico de destaque escrever um comentário a esse livro. Então, nós temos centenas de comentários ao Agnivesha Tantra, que posteriormente ficou conhecido como Caraka Samhita.

No século IV, você teve o Battara Harischandra, por exemplo, é o autor que escreveu o Caraka Nyaya, no século IV depois de Cristo. Já no ano de 1060 você teve um comentário do Chakrapani Datta, conhecido como Ayurveda Dipika, esse comentário até hoje considerado o mais famoso, de maior propriedade. Esse comentário foi escrito há quase mil anos atrás, e continua até hoje sendo talvez o comentário mais respeitado de todos já escritos. No século XV, você tem o comentário do Silvanas Sen, o Tata Dipika. No século XX, Yogendranath Sen escreve o Charakopaskara e no século XX também o Jyotish Chandra Saraswati escreve o Charaka Pradipika.

Para você ter uma noção de como esse texto, o Caraka Samhita, passou por inúmeras revisões e inúmeros comentários. Então de forma nenhuma isso foi um texto estático e continuou da forma original até hoje. A gente fala que Ayurveda é uma ciência muito antiga e que tem suas raízes há milhares de anos atrás, mas isso não significa que ela é uma ciência estática, que ela continua sendo praticada hoje da mesma maneira que ela foi prescrita há milhares de anos atrás. Então, esses comentários demonstram para gente como a cada centenas de anos, ou às vezes menos até, autores escrevem comentários aos textos antigos, reinterpretando, ressignificando e dando suas próprias opiniões.

Além dos Samhitas e dos comentários dos Samhitas, nós também temos os Nighantus, que são outros tipos de obras clássicas do Ayurveda que nos ajuda a entender, como as drogas e como os procedimentos também mudaram ao longo do tempo. Então, às vezes, uma erva, que foi recomendada pelo Caraka Samhita, hoje em dia já não tem a mesma potência, ou já não funciona da mesma maneira. Então você tem um Nighantu, um livro que vem discutir essas ervas, essas formulações, e que hoje em dia eu, por exemplo, pessoalmente, considero que a ciência da nutrição moderna é um Nighantu da Ayurveda. É uma maneira de entender o mundo atual de entender os objetos e os nutrientes e os alimentos de hoje em dia, e como esses alimentos impactam a saúde e a vida humana. Então você tem os Nighantus, que são os livros dedicados especificamente à matéria médica, que a gente chama de Dravya Guna. Então, os Samhitas e Nighantus são a base do que eu chamo de Ayurveda baseada nos Samhitas.

Dessa forma, você pode entender a maneira como a gente trabalha Ayurveda no Vida Veda.

Essa foi minha tentativa de responder à pergunta “o que é Ayurveda?”. Eu tenho certeza que não foi suficiente e que todos os  artigos futuros tentarão de alguma forma responder essa questão. Eu acho que essa é a questão que vem com qualquer pessoa que tem o primeiro contato com Ayurveda. E essa é a pergunta que eu, depois de anos estudando Ayurveda, e mesmo meus professores, décadas estudando Ayurveda, continuam se fazendo. Essa é pergunta que a gente tenta responder toda vez que a gente lê um Samhita, toda vez que a gente estuda sânscrito, toda vez que a gente trata um paciente. Toda vez que a gente estuda Ayurveda, na verdade a gente está mais uma vez tentando responder e tentando ressignificar, tentando aprofundar nosso conhecimento do que é Ayurveda.

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